Coleções Clínicas - Cardiologia Geral
 

Desfechos maternos em parturientes com doença cardíaca congênita

Autores: Dr. Bruno Paolino

Referência: Hayward RM et al. Maternal and Fetal Outcomes of Admission for Delivery in Women With Congenital Heart Disease. J Am Med Assoc Cardiol 2017 Apr 12. doi: 10.1001/jamacardio.2017.0283.

O trabalho de parto, o parto e o período pós-parto são momentos de grande risco de complicações cardiovasculares, particularmente o aumento da incidência de arritmias e de insuficiência cardíaca (IC), por causa das mudanças rápidas na volemia e na hemodinâmica, além do aumento da irritabilidade miocárdica. Isso ocorre mesmo nas parturientes que não tem história prévia de doença cardíaca. Devido à melhora do tratamento das doenças cardíacas congênitas (CC), a maioria dos pacientes com CC atualmente chegam à idade adulta e, a cada dia, uma quantidade maior de mulheres com CC ficam grávidas e dão à luz. Essas pacientes, no entanto, não tem dados populacionais sobre a taxa de incidência de eventos, na comparação com parturientes sem CC.

Para chegar a este objetivo, os autores incluíram todas as parturientes que internaram em hospitais da Califórnia para dar a luz entre 2005 e 2011. As parturientes foram classificadas como portadoras de CC complexas se apresentassem defeitos do coxim endocárdico, tetralogia de Falot, transposição de grandes vasos, truncus arteriosos e ventrículo único. Todas as outras CC foram classificadas como CC não-complexa. Os desfechos cardiovasculares maternos durante a internação incluíram as arritmias atriais (fibrilação atrial, flutter atrial e taquicaridia supraventricular) e ventriculares sérias (taquicardia ventricular, fiblilação ventricular, parada cardíaca, morte súbita sem causa conhecida durante o puerpério), pré-eclâmpsia ou eclampsia, e IC. Após a alta hospitalar, foram avaliadas novas internações por arritmias atriais sérias, ventriculares sérias e IC até 1 ano. Um total de 3.642.041 admissões para partos aconteceram durante o estudo, com 3.702.838 nascidos vivos, o que significou 98,4% de todos os nascimentos na Califórnia no período. Destas admissões, foram identificadas 3189 parturientes com CC não complexas e 262 parturientes com CC complexas. A história prévia de IC foi mais comum em parturientes com CC (19 [7,3%] com CC complexa e 111 [3,5%] com CC não-complexa e 4517 [0,1%] sem CC; P < 0,001).

Após ajuste, a CC também foi associada a internações por mais de 1 semana. Sempre na comparação com as parturientes sem CC, a presença de pré-eclâmpsia ou eclâmpsia foi mais frequente nos pacientes com CC não-complexa, (OR 1,3; IC 95% 1,1-1,5; p=0,003), sem atingir significância estatística, no entanto, para as parturientes com CC complexa (5,7% vs. 3,4%; OR 1,5; IC 95% 0,9-2,4; p=0,12). Houve também uma maior taxa de IC nas parturientes com CC não-complexa (OR 9,7; IC 95% 4,7-20,0; p<0,001) e CC complexa (OR 56,6; IC 95% 17,6-182,5; p<0,001). A presença de arritmias atriais também foi maior nas parturientes com CC não-complexa (OR 8,2; IC 95% 3,0-22,7; p<0,001) e CC complexa (OR 31,8; IC 95% 4,3-236,3; p=0,001). Por fim, somente a CC complexa esteve associada à maior chance de arritmias ventriculares sérias (OR 35,3; IC 95% 13,4-93,5; p<0,001) ou mortalidade materna intra-hospitalar (OR 79,1; IC 95% 23,9-261,8; p<0,001).

Desta forma, observou-se que a cardiopatia congênita está associada a um aumento muito expressivo do risco de complicações maternas quando há o diagnóstico de CC na mulher. Vale ressaltar que a metodologia deste robusto estudo observacional não inclui grávidas que apresentaram complicações sérias ou morreram antes do termo, provavelmente as pacientes com CC complexas ou não-complexas mais graves. Além disso, provavelmente os desfechos que não atingiram significância estatística assim o fizeram devido à raridade das CC e não pela ausência do aumento da chance. Portanto, estudo coorte é uma excelente ferramenta para mostrar que a paciente que chega à idade fértil deve ser muito bem informada sobre os riscos de uma gravidez e aquela que está grávida deve ser acompanhada de perto, provavelmente em centros especializados. Ainda assim, devemos ser.

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