Coleções Clínicas - Cardiologia Geral
 

Bloqueadores do Receptor da Angiotensina e risco de Câncer


Autor
: Dr. Bruno Paolino

Título: Ilke Sipahi, Sara M Debanne, Douglas Y Rowland, Daniel I Simon, James C Fang. Angiotensin-receptor blockade and risk of cancer: meta-analysis of randomised controlled trials. Lancet Oncology Publised online DOI: 10.1016/S1470-2045(10)70106-6.

Resumo: Em uma meta-análise com 9 ensaios clínicos randomizados e mais de 90 000 pacientes, a administração de bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) se associou a um aumento significativo da incidência de cânceres, comparada ao placebo. Entretanto, não foi observada elevação significativa em relação ao número de mortes por câncer.

Introdução: Apesar dos estudos pré-clínicos em animais terem sido negativos, há informações na literatura que o sistema renina-angiotensina-aldosterona, particularmente os receptores AT1 e AT2 da angiotensina, estão associados à regulação da proliferação celular, à angiogênese e à progressão de tumores. Além disso, o estudo CHARM, que avaliou a ação do candesartan na insuficiência cardíaca em 2003, demonstrou um aumento significativo de mortes por câncer no grupo tratamento, em comparação ao placebo. Desta forma, após a publicação de vários ensaios clínicos utilizando os BRA, é possível uma melhor avaliação do desfecho.

Objetivos: Avaliar o efeito dos BRA sobre a incidência de cânceres. A meta-análise também teve, como objetivos secundários, a participação dos BRA na incidência de tumores sólidos específicos e na mortalidade por câncer.

Métodos: Foram selecionados, na literatura científica, ensaios clínicos randomizados que utilizaram qualquer um dos sete BRA disponíveis no mercado em pelo menos um dos braços. Os estudos precisavam ter, no mínimo, um seguimento de 1 ano e 100 pacientes, e ter informações sobre o diagnóstico de novos cânceres ou sobre mortes por câncer.

Resultados: Dos 9 estudos encontrados no perfil definido pelos autores, 5 deles foram incluídos para a ocorrência de novos cânceres (LIFE, TROPHY, TRANSCEND, ONTARGET e PROFESS, n=61 509), 5 incluídos para a incidência de cânceres sólidos específicos (LIFE, CHARM-Overall, TRANSCEND, ONTARGET e PROFESS, n=68402) e 8 para mortes por câncer (LIFE, CHARM-Overall, TRANSCEND, ONTARGET, PROFESS, OPTIMAAL, VALIANT, and VAL-HEFT, n=93515). Como não havia uma uniformidade sobre a incidência de cânceres sólidos em todos os estudos, foram avaliados somente os dados sobre câncer de pulmão, mama e próstata. As características de base sobre idade, sexo, etnia, história prévia de câncer ou de tabagismo eram semelhantes em todos os ensaios, e o telmisartan foi o mais utilizado dos BRA (em 30014 pacientes).

O uso de BRA levou a um aumento significativo da ocorrência de novos cânceres (7,2% vs 6,0%; RR 1,08; IC 95% 1,01–1,15; p=0,016), comparados ao placebo. Este aumento se manteve quando foram avaliados apenas os estudos que tinham o câncer como um desfecho pré-especificado (RR 1,11; IC 95% 1,04–1,18; p=0,001), quando os BRA eram associados a um inibidor da ECA (9,7% vs 8,6%; RR 1,13; IC 95% 1,03–1,24; p=0,011) ou quando esta classe de anti-hipertensivos não era permitida (8,2% vs 7,6%; RR 1,08; IC 95% 1,00–1,16; p=0,041).
Em relação à incidência de novos cânceres em órgãos sólidos específicos, foi observado aumento dos casos novos de câncer de pulmão (0,9% vs 0,7%; RR 1,25; IC 95% 1,05–1,49; p=0,01), aumento não significativo dos cânceres de próstata (1,7% vs 1,3%, RR 1,15, IC 95% 0,99–1,34; p=0,076), incidência semelhante de cânceres de mama (p=0,74) e da soma dos outros tipos de câncer (p=0,33). Por fim, não houve aumento estatisticamente significativo em relação a mortes provocadas por câncer (1,8 vs 1,6%; RR 1,07; IC 95% 0,97-1,18; p= 0,183).
Conclusões: Os BRA aumentam a incidência de novos cânceres em geral e, particularmente, o de pulmão. Porém, este aumento na incidência não se traduz em aumento de mortes por esta enfermidade.

Perspectivas: Os dados obtidos de mais 60 mil pacientes mostram que os BRA se associam a um aumento sutil de casos novos de cânceres na população. São sutis, mas significantes. Esses números, se analisados de maneira mais global, trazem dados alarmantes: um aumento do risco absoluto de incidência de novo câncer em 1,2% em 4 anos equivale dizer um aumento do risco absoluto em 41% durante a vida do paciente, se considerarmos a média de sobrevida do paciente hipertenso. Além disso, se for observada a prevalência de pacientes em uso dos BRA, o número total de novos casos de câncer pode ser proibitivo. Nesta meta-análise, o número de pacientes necessários a promover 1 novo caso de câncer foi de 143, número ínfimo no oceano de pacientes com hipertensão, insuficiência cardíaca, nefropatia diabética ou outras indicações de BRA.

Apesar de 85,7% dos pacientes dos grupos tratamento terem utilizado telmisartan, esta droga mostrou um efeito sobre a incidência de novos cânceres de significância limítrofe (p=0,05). Desta forma, não podemos tecer conclusões sobre o risco particular de cada droga. A maior limitação do estudo é a de colher dados em ensaios clínicos cujos desenhos não contemplavam o câncer como um desfecho pré-especificado. Desta forma, as informações não foram colhidas de maneira uniforme e pode ter havido informações pouco apuradas sobre o tema em algum dos estudos. Portanto, os resultados desta meta-análise suscitam dúvidas que necessitam de ensaios clínicos específicos sobre o tema.

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