Pergunta da Semana Anterior
 
Publicada em 09/09/2010

Paciente de 45 anos vem ao seu consultório para avaliação pré-operatória de miomectomia. Ao exame físico, você ausculta um sopro sistólico sugestivo de prolapso de valva mitral. Qual sua conduta em relação à prevenção de endocardite bacteriana?

Não é necessário profilaxia de endocardite bacteriana.
 
  69%
Amoxicilina 2g, VO, 1 hora antes do procedimento (AP).
 
  18,1%
Ampicilina 2g + Gentamicina 25mg/Kg, EV, 30 min AP e Ampicilina 1g, EV, 6 horas após.
 
  10,3%
Clindamicina 600 mg, VO, 1 hora AP.
 
  1,3%
Gentamicina 25mg/Kg, EV, 30 min AP.
 
  1,3%

Comentário da Pergunta da Semana anterior

Autor: Dr. Ricardo Couto Moraes

As evidências atuais demonstram que a profilaxia da endocardite infecciosa é ineficiente na prevenção na maioria dos casos, uma vez que a correlação entre procedimento de risco e subseqüente endocardite é muito pequena para justificar o tratamento. Apenas 5% das endocardites seriam prevenidas com a profilaxia. A maioria dos casos de endocardite por procedimentos bucais, por exemplo, não se associa ao procedimento, mas acontecem, na verdade, a partir de bacteremias secundárias a atividades cotidianas. A eficácia clínica da profilaxia, inclusive, não possui comprovação científica. Mesmo se for de alguma forma eficaz, o número de casos tratados para prevenir 1 caso de endocardite (NNT) presume-se ser muito alto.

Entretanto, em pacientes portadores de prolapso de valva mitral PVM e insuficiência desta valva (IM), como a paciente da questão, o risco estimado de endocardite infecciosa chega a ser cinco a oito vezes maior que a população sem alterações da valva. As lesões degenerativas valvares como o (PVM), quando não associado a regurgitação mitral, não é uma causa predisponente de endocardite infecciosa.

Desta forma, as diretrizes indicam que a profilaxia nos pacientes anteriormente considerados como de altíssimo risco, especificamente nos portadores de valvas protéticas, nos que já foram acometidos por endocardite bacteriana prévia, nas doenças congênitas cianóticas e nos shunts sistêmico-pulmonares construídos cirurgicamente com uso de implante de material protético. A PVM + IM só deve ser tratada com antibioticoterapia em casos de procedimentos de alto risco. As recomendações atuais não indicam profilaxia antibiótica para procedimentos genitourinários (Guidelines American Heart Association/American College of Cardiology de 2008). A Sociedade Americana de Ginecologia e Obstetrícia também não recomenda a profilaxia.

Condições em que a profilaxia da endocardite não necessária e/ou não recomendável:


• Prolapso da valva Mitral, sem regurgitação

• Regurgitação valvar mínima (ex: escape mitral) sem anormalidade estrutural visivel ao ecocardiograma

• Defeitos do septo atrial isolados (fossa oval)

• Doença arterial coronariana

• Placas ateroscleróticas

• Marcapassos e desfibriladores automáticos implantados

• Cirurgia de revascularização miocardica prévia

• Correção cirúrgica com mais de 6 meses de lesão intracardíaca, com mínima ou nenhuma alteração hemodinâmica residual.

• Passado de Doença de Kawasaki ou Doença Reumática sem comprometimento valvar.


Procedimentos em que a profilaxia não é recomendada:

• Procedimentos dentários que não causem sangramento.

• Injeção intraoral ou anestesia local

• Queda de dente descíduo

• Timpanotomia

• Intubação endotraqueal

• Cineangiocoronariografia

• Parto por via cesareana, parto vaginal não complicado, implante de DIU e procedimentos de esterelização.

• Cateterismo vesical na ausência de infecção

• Broncoscopia com tubo flexivel

• Endoscopia gastrointestinal com ou sem biopsia.

Referências:

Prevention of Infective Endocarditis: Guidelines From the American Heart Association: A Guideline From the American Heart Association Rheumatic Fever, Endocarditis, and Kawasaki Disease Committee, Council on Cardiovascular Disease in the Young, and the Council on Clinical Cardiology, Council on Cardiovascular Surgery and Anesthesia, and the Quality of Care and Outcomes Research Interdisciplinary Working Group. Circulation 2007; 116: 1736 - 1754.

Clemens JD; Horwitz RI; Jaffe CC; Feinstein AR; Stanton BF. A controlled evaluation of the risk of bacterial endocarditis in persons with mitral-valve prolapse. N Engl J Med 1982; 307(13): 776-81.

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