Coleções Clínicas - Hipertensão Arterial
 

Espironolactona em pacientes com hipertensão arterial resistente: estudo ASPIRANT

Autores: Dr. Humberto Graner e Dra. Fernanda Seligmann Feitosa

Referência: Václavík J, Sedlák R, Plachy M, et al. Addition of Spironolactone in Patients With Resistant Arterial Hypertension (ASPIRANT): A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial. Hypertension. 2011;57:1069-1075.

Resumo: Ensaio clínico prospectivo, randomizado, controlado, duplo-cego, que incluiu 111 indivíduos com hipertensão arterial resistente, randomizados para receber espironolactona ou placebo em associação ao esquema anti-hipertensivo com pelo menos três medicamentos. Após oito semanas de tratamento, houve diminuição significativa nas medidas da PA sistólica obtidas no consultório e pela MAPA no grupo que recebeu espironolactona.

Introdução: Existem dados limitados sobre qual medicamento deve ser utilizado para melhorar o controle pressórico em pacientes com hipertensão arterial resistente.

Objetivos: Avaliar o efeito da adição de espironolactona (25mg) na pressão arterial de pacientes com hipertensão arterial resistente.

Métodos: Ensaio clínico prospectivo, randomizado, controlado, duplo-cego, que incluiu indivíduos sob tratamento com 3 ou mais anti-hipertensivos, em doses otimizadas, sendo pelo menos um diurético, e que apresentavam medidas no consultório de PA sistólica ≥140mmHg ou PA diastólica ≥90mmHg. Foram excluídos os pacientes com hipertensão do jaleco branco, com diagnóstico de hipertensão secundário e aqueles não aderentes ao tratamento medicamentoso.

Resultados: Ao todo foram incluídos 111 pacientes, randomizados para receber espironolactona (n=55) ou placebo (n=56) em adição ao esquema terapêutico vigente. A média de idade foi de 61 anos, 37,9% eram mulheres, o IMC médio era de 32,3kg/m². A PA média no consultório foi de 154x92mmHg e a PA de 24h na monitorização ambulatorial de pressão arterial (MAPA) média de 141x80mmHg. Os grupos eram semelhantes em todos os aspectos avaliados. As medicações anti-hipertensivas mais utilizadas eram:

Medicação

Grupo Espironolactona Grupo Placebo
Inibidor da enzima conversora de angiotensina 76,4% 76,8%
Betabloqueador 74,5% 83,9%
Bloqueador do canal de cálcio 89,1% 76,8%
Diuréticos 100% 100%
Bloqueador do receptor da angiotensina II 45,5% 48,2%
Anti-hipertensivos de ação central 58,2% 55,4%
Outros anti-hipertensivos 18,1% 8,9%

Após oito semanas de tratamento, houve diminuição nas medidas da PA obtidas pela MAPA no grupo que recebeu espironolactona. Os eventos adversos foram semelhantes em ambos os grupos.

Diferenças obtidas na MAPA

Diferenças Espironolact - Placebo P
Pressão Arterial Sistólica
– Diurno -5,4 (-10,0; -0,8) 0,024
– Noturno -8,6 (-15,2; -2,0) 0,011
– 24h -9,8 (-14,4; -5,2) 0,004
– Consultório -6,5 (-12,2; -0,8) 0,011
Pressão Arterial Diastólica
– Diurno -1,0 (-4,0; 2,0) 0,358
– Noturno -3,0 (-7,0; 1,0) 0,079
– 24h -1,0 (-3,7; 1,7) 0,405
– Consultório -2,5 (-5,9; 0,9) 0,079


Conclusão: A espironolactona foi efetiva para diminuir a PA sistólica em pacientes com hipertensão arterial resistente.

Perspectivas: A hipertensão arterial resistente ainda é uma das questões que mais desafia a prática clínica do cardiologista. Embora a prevalência exata da hipertensão resistente seja desconhecida, os ensaios clínicos sugerem que ela não é rara, envolvendo talvez 20% a 30% dos participantes de ensaios clínicos. Muitas vezes, esta “resistência” aos medicamentos instituídos deve-se a uma condição de hipertensão secundária subjacente, que deve, SEMPRE, ser investigada, e corrigida quando presente. Ainda assim, há situações em que os níveis pressóricos permanecem elevados mesmo na ausência de uma causa secundária, ou quando esta já está corrigida. Neste contexto, a adição de espironolactona ao esquema terapêutico atual já era preconizada pelas atuais diretrizes nacionais. O embasamento para esta indicação, contudo, era proveniente de estudos observacionais não-randomizados. O mérito do estudo aqui discutido foi tentar oferecer uma resposta satisfatória e objetiva sobre os efeitos da adição de espironolactona neste contexto, sob o rigor de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo. Deve ser ressaltado o baixo número de pacientes, o que, no entanto, não invalida a iniciativa dos autores, tendo em vista a improbabilidade de se financiar um grande estudo clínico envolvendo uma medicação barata e sem patente. Assim, este estudo corrobora a tendência atual de se indicar espironolactona nestes pacientes com hipertensão resistente.


Para consultar:

1 - Calhoun DA, Jones D, Textor S, et al. Resistant Hypertension: Diagnosis, Evaluation, and Treatment : A Scientific Statement From the American Heart Association Professional Education Committee of the Council for High Blood Pressure Research. Hypertension 2008;51:1403-1419.

2 – Sociedade Brasileira de Cardiologia. VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão. Arq Bras Cardiol 2010; 95(1 supl.1): 1-51.

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